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Ser paulistano nunca foi uma tarefa fácil. Principalmente, quando você não tem dinheiro. São Paulo é uma cidade grande, rica e importante, sem sombra de dúvida. Porém, é uma cidade que maltrata, e muito. Pelo seu gigantismo e por ser o principal pólo econômico nacional, São Paulo tem urgência em quase tudo. Tudo deve ser resolvido rápido, num piscar de olhos. Prazos têm que ser cumpridos, distâncias têm que ser percorridas, encomendas têm que ser entregues, pagamentos e recebimentos têm que ser feitos, mercadorias e serviços têm que ser consumidos. Nesse processo, nesse turbilhão incontrolável que move a metrópole, muita gente entra com uma cota considerável de sacrifício. Muitas vezes, sacrificando tudo o que foi conseguido numa vida inteira, sem reposição. São cidadãos, e considerados como tal, apenas enquanto sua utilidade no girar na engrenagem for útil. Depois disso, cada um por si. Claro que existem também os oportunistas, que capitalizam muito em qualquer situação. E esse caos urbano não escolhe classe social. Qualquer um, desde um simples morador de rua, uma dona de casa, um estudante, até um rico empresário ou um influente político, pode ser engolido nesse processo, com conseqüências imprevisíveis.
Sou paulistano de nascimento, da zona norte, do Bairro do Limão. Por ser filho de operário e dona de casa, sempre convivi com os grandes problemas que assolam a cidade, desde enchentes (uma realidade constante em épocas de muita chuva nos anos 1970 nas regiões próximas ao córrego Mandaqui), desemprego e transporte público ineficiente, além da violência que impera impune na cidade há muito tempo. De uma forma ou de outra, você acaba se acostumando e absorvendo como algo cotidiano. Incrível, não? Ao invés de indignação e cobrança taxativa de solução por parte da sociedade e do poder público, a gente, simplesmente, se acostuma. Mas não acredito que essa alienação venha do fato de sermos maus cidadãos, ou de não nos importarmos. A gente guarda a indignação porque ela acaba servindo apenas para nos criar problemas coronárianos. A solução nunca vem, e a cidade segue com os interesses de alguns sempre sendo satisfeitos em detrimento da maioria da população, passando como um rolo compressor por cima de quem não tem escolha. Alguém tem alguma dúvida a respeito da razão da cidade ficar praticamente deserta em qualquer feriadinho prolongado? As pessoas precisam de São Paulo, mas, quando podem, não querem ficar aqui. A cidade maltrata e convida a sair.
Os que acompanham esse fotoblog podem estar se questionando da razão de toda essa reflexão. Bom, em primeiro lugar, a reportagem da revista EPOCA SÃO PAULO desta semana, cuja capa ilustra este texto, onde os jornalistas discorrem sobre a insatisfação da população ante os constantes e reincidentes problemas da cidade e pela aparente apatia do poder público, representado por um inexplicavelmente otimista prefeito Giberto Kassab. Kassab, além de pedir que a população não se preocupe, ainda elogia o trabalho da equipe dele e diz que os investimentos estão surtindo efeito. Só se for o efeito inverso. Mas, por outro lado, culpar Kassab por toda essa calamidade é ser um tanto injusto. Todos os estilos de administração e ideologias políticas já passaram pela cadeira da prefeitura. São Paulo parece imune à administração. Fica a impressão de que, entre quem entrar, a coisa toda não depende do comando central. Talvez não seja apenas o prefeito que prefira dar as costas para a cidade a enfrentar os problemas, custe o que custar. O cidadão também necessita parar por um momento e enxergar a cidade onde vive. Cidadãos conscientes e responsáveis elegem políticos à altura. Em segundo, dá para fazer uma boa reflexão sobre o todo a partir da situação da região central da cidade, e seu longo histórico de abandono.
Esse fotoblog trata dos antigos cinemas do centro. A gente poderia se perguntar a causa de uma cidade como São Paulo, a mais importante do país, simplesmente não se importar que uma região histórica e tão importante simplesmente se mantenha no estado lastimável em que se encontra por décadas sem que haja uma manifestação relevante, sequer, a respeito. A população, simplesmente, não se importa. Ou, na minha opinião, não pensa ser um problema dela. Afinal, na correria do dia a dia, temos o costume de terceirizar o que podemos, até problemas que são nossos, se for possível. O cidadão paulistano, que se mata de trabalhar, se acaba no trânsito e na condução, paga impostos que beiram a indecência, recebendo serviços que beiram a inexistência, corre para lá e para cá, não pára um só minuto para pensar na cidade em que vive. E por que tanta indiferença? Talvez porque São Paulo seja uma cidade formada, na sua maioria, de migrantes, acho eu. Gente que veio para cá para vencer e sonha em voltar às suas raízes. São Paulo foi só a passagem, a ponte, o meio. Depois que tudo estiver feito, vão virar as costas à cidade e esquecê-la. Falta amor por essa cidade. Minha mãe, que era catarinense, vivia dizendo que gostaria de voltar a Santa Catarina. Ela faleceu sem concretizar o sonho. Ela, como muitos milhões, não nutriu o amor, de fato, de quem cuida e se importa. Não que essas pessoas não queiram amar a cidade mas, por questão de classe social ou diferenças culturais, muitas pessoas sofrem discriminação, e se ressentem. Culpam a cidade, quando a responsabilidade é de pessoas de índole duvidosa. São Paulo precisa de um pacto, uma grande mobilização para construir uma cidade para o futuro. Uma cidade que acolha, mas também onde as pessoas queiram viver, considerem sua.
Nessa nova cidade, idealizada, as pessoas vão protestar muito quando um espaço cultural histórico simplesmente for sucateado, abandonado, demolido ou relegado à atividades que desonrem o nome, a história e a imagem da metrópole.
São Paulo necessita de paulistanos de fato, e não paulistanos de ocasião, que já somamos muitos milhões, infelizmente.
Sergio...readequar o centro novamente é uma tarefa muito dificil, vou te dar de exemplo o Marabá, a presidente da Playarte disse que a obra se estendeu por mais tempo, devido o predio ser tombado e eles tem que atender as especifições para não alterar o imovel. Enquanto no shopping se levanta um cinema em 6 meses , no Marabá foram quase dois anos.Alem de que o aluguel no local custa 50,000 reais. E muito mais do que se paga num shopping.As pessoas se sentem receosas de tentarem algo numa area que não oferece segurança alguma e que não é tão atrativa....o investimento é muito e o retorno indefinido...um depende do outro nessa historia....
Resposta:
Entendo, Tainá.
Por isso dou nota 1000 para a Dona Elda, presidente da Playarte. Agora, acho estranho um imóvel ter um aluguel considerado tão alto numa região marginalizada pela população,como você mesmo salientou. Achei que esses prédios estivessem a preço de banana. E, por que o poder público demora tanto a aprovar a revitalização desses espaços, já que fechados eles se deteriorariam muito mais rapidamente, sendo tombados ou não? Tenho uma teoria. Interessa a alguém que o centro continue como está. Os shoppings prosperaram muito e se disseminaram pela cidade no mesmo período em que a região central foi decaindo até o estado em que se encontra, devido à insegurança, ao descaso, à falta de investimento e ao abandono. E eu duvido muito que um miltiplex de um shopping, com aluguel, condomínio, luvas e tudo mais custe tão barato assim. Se fosse assim, por que os ingressos nos cinemas de shoppings chegam até a 200% de um ingresso vendido no Marabá? Esse cinema foi o primeiro investimento sério na região em 30 anos. Muito pouco.



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